sábado, 11 de fevereiro de 2012

“Em primeiro Lugar, não causar dano”: O Engodo da Indústria Farmacêutica e das Práticas Farmacológicas no Tratamento de Doenças Mentais

Esta é uma antiga discussão: o que é mais eficaz no tratamento dos distúrbios psíquicos? Os tratamentos baseados na “conversa”, a talking cure (cura pela fala) introduzida por Freud e seus adeptos quando do advento da psicanálise? Ou a resposta estaria pautada  nos avanços científicos das últimas décadas e seus estudos do funcionamento do cérebro, que trata as doenças mentais como um desequilíbrio químico que deve ser medicado?

Segundo artigo “A epidemia da doença Mental” (Revista Piauí, nº 59 por Marcia Angell[i]) o número de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais e sob tratamento farmacológico teve aumento significativo nas últimas décadas. É importante citar os questionamentos que o autor se faz, logo no início de seu artigo:

“O que está acontecendo? A preponderância das doenças mentais sobre as físicas é de fato tão alta, e continua a crescer? Se os transtornos mentais são biologicamente determinados e não um produto de influências ambientais, é plausível supor que o seu crescimento seja real? Ou será que estamos aprendendo a diagnosticar transtornos mentais que sempre existiram? Ou, por outro lado, será que simplesmente ampliamos os critérios para definir as doenças mentais, de modo que quase todo mundo agora sofre de uma delas? E o que dizer dos medicamentos que viraram a base dos tratamentos? Eles funcionam? E, se funcionam, não deveríamos esperar que o número de doentes mentais estivesse em declínio e não em ascensão?”

O conteúdo do restante do artigo é perturbador; vem mostrar através de registros históricos e pesquisas rigorosas que o uso de medicamentos psicoativos pode acabar não tendo mais que um efeito placebo sobre os sintomas apresentados ou – pior ainda! – acabar surtindo mais dano que benefícios.

A par dos movimentos institucionais e midiáticos que concorrerem para tornar a psiquiatria a grande detentora dos movimentos pró “cura” da atualidade, e da medicação como a forma de “tratamento” mais eficaz, fica a pergunta: por que as pessoas continuam aceitando carregar estes rótulos?

Hoje em dia na clínica atendemos pessoas que nos procuram com 3, 4 ou até mesmo 6 diagnósticos diferentes, tomando um largo coquetel de medicamentos para controle dos sintomas. Algumas vezes, tomam medicações para conseguir dormir para apenas, no outro dia, tomar outra medicação para conseguir acordar. Por que as pessoas se sujeitam a isso?

Se pararmos para pensar, veremos que o sujeito de hoje parece estar imerso em uma sociedade onde o imperativo categórico parece ser o consuma, sem pensar nas conseqüências. Vemos emergir um novo tipo de sujeito que tenta, a todo custo, obliterar a falta e negá-la através da aquisição de bens. É a busca do gozo absoluto, que leva ao consumo irrefreado e sem desejo; e que, por isso mesmo, não pode ser alcançado.

Se por um lado globalização veio facilitar nossas vidas, ao permitir por exemplo conversas online em tempo real através de grandes extensões dentro do globo terrestre, por outro levou-nos a acreditar e apregoar que a melhor saída é o imediatismo, em que se busca retornos rápidos e a curto prazo sem muito esforço.

Neste contexto, não é tão difícil assim entender por que as pessoas continuam aceitando a medicação em detrimento a terapia. Afinal, por que alguém iria querer falar a respeito de suas angústias, ou entrar em contato com suas emoções reprimidas e dolorosas, quando se tem a felicidade em forma de cápsulas ao alcance das mãos?

Não quero ser radicalista; não sou, de forma alguma, contra o uso de drogas psicoativas no tratamento de transtornos psíquicos. A questão aqui é o uso indiscriminado deste tipo de prática, e as perdas e danos daí advindos – danos que já estão sendo expostos por inúmeros pesquisadores sérios como: Irving Kirsch (psicólogo da Universidade de Hull, no Reino Unido), Robert Whitaker (jornalista) e Daniel Carlat (psiquiatra), todos citados no artigo de Marcia Algell.

A dor, assim como a febre, vem nos dizer que algo em nós não está bem, é um sintoma, um mecanismo de defesa e um sinal de alerta do nosso organismo. Pará-la, não fará com que o problema subjacente seja resolvido, só cessará sua manifestação e talvez piore o quadro, se este não for investigado.

Podemos dizer a mesma coisa de nossas emoções e sentimentos, que vem sistematicamente sendo amordaçadas pela enxurrada de medicações psicotrópicas indiscriminadamente prescritas e utilizadas. Talvez alguns estejam certos ao dizer que vivemos uma epidemia: de falta de valores, limites mas, principalmente, falta de desejo que nos oriente e dê sentido a vida.

Tão bom quanto a fluoxetina para a depressão, é um bom passeio ao ar livre, divertir-se com os amigos, trabalhar no que gosta, ter hábitos saudáveis de vida, balanceando sono e alimentação com exercícios regulares. Mas é lógico que nenhum médico ou farmácia vai lhe dar uma receita onde estará escrito “permita-se sentir dor e aprenda a crescer com ela”, até por que o modo como lidamos com nossas angústias é uma escolha. E você, qual fará?


2 comentários:

  1. Psicologia não é uma área que me chama muito atenção, especialmente por ser humana e meu ramo de atuação ser mais voltado para exatas.
    Mas esse é um tema a ser abordado mutuamente por qualquer tipo de pessoa, algo que devemos nos atentar e estar alertas não só nesse caso mas a qualquer tipo de medicação ou tratamento que nos é proposto.
    Ótimo post.

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  2. É um absurdo como a APA - American Psychological Association - tem o poder de criar anualmente cada vez mais psicopatologias e emplacar com ajuda midiática cada vez mais psicotrópicos como solução para tudo, contribuindo para o crescimento da cruel industria farmacêutica.

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